Largar sob comando?

Largar sob comando?

por Max Macedo março 10, 2020

Max Mendes Macedo 

Esse é um assunto que tomou força no Brasil principalmente após algumas imposições mais recentes da WUSV (Associação Mundial de Clubes do Pastor Alemão) com relação a esse e outros critérios para a concessão do título de VA em grandes exposições. Devido as limitações de toda ordem existentes da América do Sul e especialmente aqui no Brasil, tais como deficiências genéticas e carências de impulsos ancestrais de muitos dos cães de ponta das exposições, falta de cultura adequada para a melhor criação e educação dos filhotes para prepará-los melhor para a idade adulta, deficiências técnicas no treinamento, carência de bons figurantes, equipamentos, locais de treino etc, essa recente determinação tem causado muita controvérsia e dificuldades em todas as esferas, o que é natural e esperado. 

Para que possamos minimizar a polêmica e fazer com que o momento possa ser produtivo, primeiramente, devemos resolver uma questão ainda bem confusa na percepção de muitos: para quê largar sob comando? Essa pergunta tem sido observada nas discussões, onde alguns argumentam que, como são apenas cães de exposição e não de provas de trabalho ou mesmo de atividade policial, o “largar” sob comando não teria utilidade. Contudo, essa abordagem é um engano, causada por uma percepção inadequada do que é e qual a finalidade das exposições de criação e, da importância delas para a seleção como um todo do cão Pastor Alemão, uma raça que se construiu em cima de mais de um século de respeito criado pelo seu temperamento firme, porém, equilibrado. Além dessa questão, falta também a compreensão de que o objetivo principal da verificação do cão largar sob comando em uma exposição de criação ou prova de seleção não é atestar o seu nível de “adestramento”, mas sim, ser mais um item de avaliação dos seus atributos comportamentais! 

Medir o temperamento de um cão apenas pela sua mordida é muito pouco, sobretudo em uma raça como o Pastor Alemão e em uma circunstância de teste tão simples e fácil como é a das exposições. Muitos dos cães que tem a capacidade de serem aprovados numa prova de proteção de uma exposição atingem essa aprovação numa linha tão tênue que, caso tenham que ser submetidos a mais um nível de estresse e necessidade de lidar com os seus próprios nervos e autocontrole, sucumbirão. Justamente por isso o largar sob comando é tão importante, com ele conseguimos separar melhor o joio do trigo. Só cães com bons impulsos e com equilíbrio emocional conseguem, não só morder bem, mas, largar bem sob comando, mantendo o estado emocional combativo, de vigilância, de prontidão proativa. 

O grande problema com o qual nos deparamos é a falta de condições gerais em que nós brasileiros nos encontramos para proceder um nível de exigência desses. Não basta que as regras sejam enrijecidas (e devem sim ser), os criadores, proprietários, treinadores e figurantes devem rever a maneira que os cães tem sido criados e treinados desde a infância; boa parte das limitações comportamentais vem de problemas de criação, manejo e treinamento. Todo comportamento tem origem genética mas, também sofre influência do meio. 

O treinamento de largar sob comando não deve ser algo que venha de maneira súbita em um treino de proteção, sobretudo em um cão adulto. O ideal seria que os cães aprendessem a largar desde filhotes, fora do quadro da proteção, de maneira pedagógica, em níveis menores de motivação, para que pudessem compreender melhor o “larga”, antes que esse fosse requerido em um nível motivacional muito maior como é o da proteção lá na frente. Existem muitas técnicas para se ensinar a “largar” e, não é meu propósito aqui tratar desse assunto. O que é mais importante é encorajar a todos os envolvidos no processo (criadores, proprietários, expositores, treinadores, figurantes, handlers e juízes) a reverem os conceitos, focarem no desenvolvimento dos cães jovens para que tenham um futuro “larga” de qualidade, que não destrua a sua proteção, mas, que dê mais autoconfiança e combatividade. Para tal, independente da técnica de ensino, o que deve ser geral é ensinar ao jovem cão, fora do treino de proteção, que, o comando “larga” não é a interrupção de sua ação, não é o fim, não é a morte, é sim apenas uma transição para um melhor recomeço de luta e vitória! 

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